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Internet ou Presidente
Dick Morris, o assessor mais influente de Bill Clinton e hoje militante activo anti Clintons e Obama, em 2003, numa conferência na Fundação Cupertino de Miranda no Porto, organizada pela Omnisinal, declarava que a televisão tinha perdido a batalha com a Internet: “mesmo no prime time os jovens preferem a Net à televisão”, dizia com absoluta convicção. Dick Morris é um dos mais destacados especialistas em comunicação política pela Net, (autor do “vote.com” e do “dickmorris.com” e de vários livros sobre comunicação e ciência política). A realidade norte-americana era diferente da nossa. Mas a afirmação parecia então muito exagerada.
Passados sete anos verificamos que a Internet paulatinamente ganha à televisão. Hoje é a principal plataforma de comunicação à escala global. Os números são impressionantes, dados de 2008 -: 31.000 milhões de buscas no Google); 1.000 milhões de pessoas conectadas à Internet.
Em Portugal, segundo dados de 2009 da UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento -, verifica-se que: 91% dos cidadãos com formação superior recorrem acedem à Internet; 98% dos estudantes (o “Magalhães” funcionou!) têm computador e 97% acedem à Internet; em termos da população em geral 48% acede normalmente à Internet (dados do Eurostat).
Na Grã-Bretanha os principais canais de televisão, liderados pela BBC, acabam de lançar uma plataforma comum (protocolo de televisão pela Internet) para permitir acesso desde a rede aos programas. Esta plataforma pode ler-se como um acto de rendição da televisão. A Internet passa a ser o canal que aloja todos os outros meios de comunicação (televisões, rádios, jornais, telefones…).
Francis Caron, professor da Sorbonne afirma: “a Internet está na base da terceira revolução industrial”. Mais que a revolução industrial a Internet é um dos principais instrumentos da “revolução do conhecimento” que rapidamente substitui a “era” industrial. Instrumento enquanto tecnologia e como motor das mudanças profundas na forma de produzir, vender e consumir.
O denominado receptor no processo de comunicação, designação hoje imprópria, porque está longe da realidade da comunicação interactiva, (defendemos a denominação de interlocutor) é forçado a mudar as rotinas e as formas de se posicionar face aos media. Nestes recebe os conteúdos. Na Internet tem que partir em busca daquilo que lhe interessa para se informar, para saber, para comprar e até para se divertir. E este “partir em busca” significa tornar-se activo, ser participante e autor daquilo que quer ou precisa. Há pouco tempo, havia a necessidade de aceder à informação um bem precioso para qualquer líder. Hoje, o que é necessário é ser capaz de seleccionar ou processar a informação que nos interessa. A informação total e global está na Internet. O desafio é saber seleccioná-la.
A Internet está transformar o poder. O autor do slogan “la force tranquille” de Mitterrand em 1981, Jacques Séguéla, escreve no Prefácio de um dos livros de Dick Morris, “Vote.Com”: “o poder não está mais no poder, nem mesmo, como aconteceu nos últimos anos, no contra-poder dos media”. A Internet é o instrumento chave da mudança na sociedade de massas para uma sociedade de pessoas, onde, como afirma Séguéla: “o rei não será mais o Presidente, mas sim a opinião pública”.
Levar a sério esta conclusão de Séguéla significaria que os líderes políticos e os partidos, em vez de se preocuparem com as eleições presidenciais, deveriam antes preocupar-se com o clima da opinião pública. O seu futuro depende mais desta do que de um Presidente. E esta depende cada vez mais da Internet.
Custódio Oliveira - Consultor de Comunicação
